A discussão sobre Altas Habilidades/Superdotação (AHSD) enfrenta um problema estrutural: embora existam múltiplos modelos teóricos consolidados, não há consenso sobre uma definição única que delimite de forma universal esse perfil e o distinga dos demais.
Dentre as teorias clássicas e de maior impacto sobre o tema estão:
- Kazimierz Dabrowski - Teoria da Desintegração Positiva (1964)
- Não define superdotação apenas por desempenho cognitivo, mas por alto potencial de desenvolvimento da personalidade, marcado por intensidades psíquicas e conflitos internos estruturantes. O crescimento ocorre por meio de crises e reorganizações internas conscientes. AHSD, nessa perspectiva, é potencial ampliado de desenvolvimento psicológico e moral, não apenas inteligência elevada.
- Joseph Renzulli - Modelo dos Três Anéis (1978)
- Define altas habilidades como a interação dinâmica entre habilidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa. Superdotação não é um traço fixo, mas um padrão comportamental que emerge quando esses três fatores operam conjuntamente em determinado contexto. AHSD, nesse modelo, é potencial produtivo que se manifesta na produção criativa e no desempenho de alta qualidade
- Howard Gardner - Teoria das Inteligências Múltiplas (1983)
- Define altas habilidades como desempenho elevado em um ou mais domínios específicos de inteligência, considerados relativamente independentes entre si (linguística, lógico-matemática, espacial, musical, interpessoal etc.). Rejeita a ideia de uma inteligência geral única mensurável apenas por QI. AHSD, nesse modelo, é excelência diferenciada em áreas cognitivas distintas.
- Francois Gagné - Modelo Diferenciado de Dotação e Talento - DMGT (1985)
- Distingue dotação (aptidões naturais acima da média) de talento (competência sistematicamente desenvolvida). Afirma que talentos emergem quando capacidades naturais são transformadas por prática deliberada, motivação e fatores ambientais. AHSD é potencial elevado que pode ou não se converter em desempenho de alto nível.
- Robert Sternberg - Modelo Triárquico (1985)
- Define altas habilidades como integração funcional de três tipos de inteligência: analítica, criativa e prática. O foco não é apenas resolver problemas, mas adaptar-se, modificar ou selecionar ambientes de forma eficaz. AHSD é capacidade de sucesso adaptativo em contextos reais.
Existe um forte estereótipo de que a identificação de AHSD depende fundamentalmente da mensuração do QI, como se ele fosse a métrica central e suficiente para definir inteligência.
No entanto, os principais modelos teóricos questionam essa centralidade. Renzulli desloca o foco para a interação entre habilidade, criatividade e engajamento; Gardner rejeita a noção de inteligência única; Gagné diferencia potencial natural de desempenho desenvolvido; Sternberg enfatiza adaptação prática; e Dabrowski associa o fenômeno a potencial de desenvolvimento da personalidade. Em diferentes graus, todos tratam o QI como indicador parcial; útil em certos contextos, mas insuficiente para capturar a complexidade do perfil, podendo inclusive distorcer a investigação quando usado de forma exclusiva.
A unidade fundamental
Os modelos são funcionais, mas nenhum deles responde essa pergunta, quase ontológica: o que gera esse conjunto de características? Qual aspecto central que ramifica nas várias questões que compõem a complexidade desse perfil neurodivergente?
Vejo na teoria de Dabrowski uma forma de se responder a essa pergunta. Dentro dela, um conceito se destaca: a sobre excitabilidade (overexcitability).
“Overexcitability means that the response exceeds the stimulus input.”
“Higher than average responsiveness to stimuli, manifested either by psychomotor, sensual, emotional, imaginational, or intellectual excitability…”
Se indivíduos com alto desempenho criativo apresentam sistematicamente maior intensidade de resposta psíquica, então a intensidade pode preceder e estruturar o desempenho.
Aqui entra a tese central:
A unidade fundamental da AHSD não é a inteligência. É a sobre excitabilidade. A inteligência mede eficiência cognitiva. Já a sobre excitabilidade mede a intensidade de processamento. São dimensões diferentes.
Um sistema nervoso com maior responsividade pode reagir mais fortemente ao mesmo estímulo, codificar experiências com maior carga afetiva e cognitiva, consolidar memória com maior intensidade, amplifica a recompensa associada à descoberta.
Em termos neurobiológicos, é como se fosse um sistema de resposta e recompensa mais sensível. Um sistema capaz de gerar maior: curiosidade exploratória, motivação intrínseca, busca por novidade, intolerância ao tédio. Angústia de quando o ambiente é raso é o que reorganiza a narrativa tradicional. Mover ou morrer. Não é que “a inteligência é maior”, é que o sistema responde mais - e por demanda, por um sentimento como o de necessidade de sobrevivência.
Assim, o mesmo evento de vida produz maior ou menor excitação psíquica. Com essa maior excitação e processamento, também ocorre maior elaboração e complexificação. Dabrowski chama isso de potencial de desenvolvimento (Developmental Potential), que não inclui apenas habilidade, mas também as sobre excitabilidades, os dinamismos, etc.
Se o potencial de desenvolvimento é composto por intensidade + talento + forças autônomas, então a intensidade é a condição energética do sistema.
Se isso for correto, então AHSD não é simplesmente um extremo estatístico de QI. É um fenótipo de intensidade. E isso resolve várias ambiguidades.
– Por que alguns indivíduos com QI alto não apresentam sofrimento existencial?
– Por que nem todo indivíduo criativo tem alto QI formal?
– Por que a energia motivacional cai abruptamente após compreensão?
Porque a variável organizadora não é apenas capacidade, mas responsividade do sistema. A unidade fundamental da AHSD pode não ser “inteligência acima da média”. Mas sim sobre um sistema de resposta que excede o estímulo. Inteligência elevada seria uma possível consequência estrutural de anos de processamento intensificado.
Não é “quanto você sabe?”.
É “o quanto você reage ao mundo?”.
As capacidades, afinal, são construídas dia a dia.
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