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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Neuroplasticidade indutivista

o pensamento

Algumas pessoas acabam desenvolvendo uma certa facilidade de pensar sobre muitas coisas o tempo todo, com maior velocidade, pensamento ramificado, caminhos paralelos, diferentes cenários sendo analisados ao mesmo tempo. Outras pessoas podem treinar, no lugar disso - ou junto com isso - a memória.

É como se fosse uma diferença de ênfase entre processamento e armazenagem de informação.

De um lado, a mente que explora, que combina, que percorre possibilidades. 

De outro, a mente que acumula, que organiza, que mantém densidade de repertório disponível. 

Não é exatamente uma diferença de inteligência, e sim de função mais exercitada.

a memória

De toda forma, treinar memória talvez também tenha relação com treinar coisas importantes ou treinar coisas específicas. Porque estamos recebendo estímulos o tempo todo, mas só uma parte disso permanece. 

Treinar memória, no fundo, significa acessar novamente. O que volta a ser usado se fortalece. O que nunca é reutilizado tende a desaparecer.

Então memória não é apenas armazenar - é reutilizar o que tem valor recorrente. Isso implica uma espécie de seleção implícita: o que fica é, de alguma forma, útil, ou pelo menos conectável a outras coisas.

a velocidade 

Em contrapartida, existe a exposição ao conhecimento mais rápida, mais fluida, às vezes profunda, às vezes superficial. 

Não é exatamente uma questão de qualidade, mas de velocidade, quantidade, e por consequência, de fragmentação. Muitas coisas em sequência, muitos temas ao mesmo tempo, camadas de informação que passam sem necessariamente se fixar.

À primeira vista, isso parece improdutivo. Como se nada estivesse sendo realmente aprendido.

Mas eu penso nisso como ruído de fundo.

o ruído

Um repertório difuso que se forma sem consolidação explícita. Algo próximo de uma biblioteca à maneira de Humberto Eco: você sabe que o livro existe, reconhece o tema, talvez o título ou o índice, mas não domina o conteúdo. 

É familiaridade por meio de uma conexão frágil, mas existente.

São memórias fracas, periféricas, que não servem para execução profunda, mas ampliam o espaço mental de navegação. 

Quando um problema aparece, essas referências podem ser ativadas por proximidade, por associação, por contiguidade semântica.

o adjacente

Nesse sentido, o ruído de fundo não é desperdício. Ele amplia o campo de busca.

Profundidade permite executar.
Memória recorrente permite eficiência.
Mas o ruído de fundo permite conexão.

E talvez a criatividade dependa exatamente disso.

Porque ela parece menos ligada ao domínio profundo de um único campo e mais à capacidade de acessar o adjacente possível: aquilo que não dominamos totalmente, mas que é familiar o suficiente para ser combinado com outra coisa.

E criar algo novo a partir daí. 

a criatividade

Se tudo for profundo, o espaço de variação diminui.
Se tudo for superficial, nada se consolida.

Talvez a estrutura mais fértil seja em camadas: um núcleo de conhecimento denso, uma zona de uso recorrente e, ao redor, esse ruído estruturado, essa memória de fundo.

A maioria das ideias novas provavelmente não vem do núcleo.

Elas vêm desse ruído, no momento em que alguma conexão faz com que ele deixe de ser ruído.

a persistência

Abrir caminhos, ampliar o repertório do adjacente.
Criar combina o que já é existente

Mas e o que ainda não existe?

Execução é escolher onde colocar a atenção.
E onde sustentar.

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