Consequências burras sociais
Deve existir uma relação entre problemas na lombar em homens e o machismo.
O homem é ensinado desde cedo que rebolar, mexer o quadril, dançar, se mexer demais, é coisa de mulher. Que homem tem que ser forte, rígido. O modelo ideal do "homem macho" acaba sendo esse: um urso gigante, forte, com um tronco grosso, como um cedro — enraizado, fixo, nada derruba, nada o move.
Inabalável. Legendário.
Só que, quando você olha para a saúde do corpo, especialmente do quadril e da lombar, a maior parte das coisas que fazem bem é justamente o movimento. Movimento de vários tipos: pilates, yoga, exercícios de mobilidade, alongamento. A flexibilidade, por si só, muitas vezes ainda é visto como feminino. Coisas que, de alguma forma, enfraquecem a masculinidade.
No fim, o que deveria ser base de saúde acaba sendo evitado por uma frágil e, muitas vezes burra, construção cultural.
Referências científicas refutam; ou esclarecem a impossibilidade diante o viés?
Porém, na verdade a prevalência de problema lombar é em mulheres. Me arrisco demais que é unicamente pelo fato de que homens não engravidam. Enfim, mais uma dúvida que a ciência não vai poder me responder ainda vivo.
Mas não deixa de ser interessante pra refletir:
Como estruturas sociais burras conseguem impor comportamentos sem aparente qualquer vantagem adaptativa?
A Teoria da Evolução Multicamada (Multilayer Evolution Theory)
Considerando que certos comportamentos sociais podem não ser explicados diretamente por vantagens adaptativas clássicas, mas sim por movimentos de construção de identidade, formação de grupos e organização social, ainda assim é plausível que esses comportamentos estejam, em algum nível, correlacionados com processos mais fundamentais de seleção — especialmente a seleção sexual, ligada à perpetuação dos genes por meio da reprodução.
Isso remete ao caso das aves-do-paraíso (que particularmente sou apaixonado). Em determinados contextos ecológicos, com baixa pressão de predadores e relativa facilidade de sobrevivência, essas espécies desenvolveram características altamente custosas do ponto de vista energético: como plumagens exuberantes, com função majoritariamente estética e visual. Essas estruturas, embora prejudiquem aspectos funcionais como voo e agilidade, e até aumentem a vulnerabilidade à predação, foram selecionadas. A explicação mais aceita é que esses traços sinalizam aptidão. O indivíduo consegue sustentar um “custo” elevado e ainda assim sobreviver, o que o torna mais atrativo sexualmente.
Voltando ao caso humano, não se trata de um paralelo direto, mas de um fenômeno em outro nível. Certos padrões, como construções específicas de masculinidade, podem emergir como mecanismos de identidade e pertencimento social. Esses padrões estruturam grupos, mas também se inserem em dinâmicas mais complexas. Competição, dominação, hierarquia e exploração entre grupos.
A partir disso, surge um ponto central: a evolução não opera em um único nível, nem pode ser reduzida a uma métrica simples como “inteligência” das espécies. A tentativa de hierarquizar espécies com base nisso - humanos, depois primatas, golfinhos, etc. - é uma simplificação excessiva, uma falácia reducionista.
A evolução funciona em múltiplas camadas. Uma primeira camada é a da replicação, como discutido por Richard Dawkins: processos que começam no nível molecular, passam pelo desenvolvimento da vida e se organizam na lógica do “gene egoísta”, onde unidades replicadoras competem por perpetuação genética.
Além disso, há níveis adicionais: seleção no nível do indivíduo, dinâmicas de grupo, pressões sociais e, posteriormente, a dimensão cultural. Onde entram os memes e a memética como formas de replicação de informação, discutido inicialmente também pelo próprio Dawkins.
A outra ideia central é a hipótese de um terceiro nível, nem químico (replicação), nem biológico (evolução das espécies); porém mais característico do ser humano: a capacidade de racionalização e de consciência reflexiva. Não apenas consciência no sentido biológico, mas a capacidade de o indivíduo ter consciência da própria consciência. Um nível melhor explorado na psicologia e estudos relacionamentos à mente humana.
Essa camada introduz um novo tipo de dinâmica evolutiva. Ela permite não apenas a reprodução de padrões, mas a sua revisão deliberada. Nesse ponto, conecta-se com a teoria da desintegração positiva de Kazimierz Dąbrowski, especialmente o conceito de “terceiro fator”, que representa a capacidade autônoma de o indivíduo avaliar, selecionar e reconstruir seus próprios valores e comportamentos, para além de condicionamentos biológicos e sociais.
O 'terceiro nível' de Dabrowski
Bom, se existe esse “terceiro nível”, ele não é homogêneo naqueles que se manifesta. Não aparece da mesma forma em todos os indivíduos, nem opera com a mesma eficiência.
Há uma diferença estrutural, que não basta ter a capacidade de refletir sobre a própria consciência (capacidade metacognitiva). É preciso conseguir regular esse processo (regulação metacognitiva).
Uma coisa é conseguir se observar pensando. Outra, bem diferente, é conseguir decidir quando continuar pensando, quando parar, quando agir e quando encerrar a análise.
Sem isso, o que parece uma vantagem cognitiva vira um sistema sem freio.
Esse ponto é discutido na psicologia como a diferença entre capacidade metacognitiva e regulação metacognitiva, originalmente derivada dos trabalhos de John H. Flavell e posteriormente expandida em modelos de autorregulação e na terapia metacognitiva de Adrian Wells.
A capacidade metacognitiva amplia o espaço de possibilidades. A pessoa consegue simular cenários, questionar pressupostos, inverter perspectivas, reconstruir argumentos. Em termos práticos, ela enxerga mais.
Mas enxergar mais não implica decidir melhor.
Sem regulação, esse aumento de resolução vira ruído. A pessoa não converge. Fica presa em loops de análise, revisitando decisões, antecipando cenários, reconstruindo possibilidades indefinidamente. Deixa de ser sobre reflexão. É ruminação mental.
E aqui está um ponto contraintuitivo: o problema não é excesso de pensamento. É ausência de critério. Critérios de seleção e parada.
Porque, do ponto de vista bioenergético, pensar tem alto custo. Cada iteração adicional só faz sentido se o ganho marginal de informação compensar esse custo. Sem um mecanismo de encerramento, o sistema continua rodando mesmo quando já não há ganho real. Só desgaste.
Isso explica por que indivíduos com alta capacidade cognitiva frequentemente aparecem nos dois extremos: ou como altamente eficazes, ou como cronicamente paralisados.
Não é a capacidade que diferencia. É o controle sobre ela. Em termos simplificados, é quase como se o desempenho fosse um produto: capacidade × regulação. Se um dos termos é próximo de zero, o resultado também é.
Uma ferramenta de alto risco e alta variância de retorno
Isso se conecta novamente com a ideia do “terceiro fator”. A autonomia não está apenas em questionar valores herdados, está em conseguir reorganizar o próprio sistema interno sem entrar em colapso recursivo.
E isso muda a interpretação inicial. Aquela capacidade de “dialogar consigo mesmo” não é, por si só, um diferencial adaptativo estável.
Quando bem regulada, permite exatamente o descrito: simular múltiplos vieses, antecipar consequências, refinar decisões. Um ganho real de autonomia e velocidade em se realizar ciclos cognitivos.
Quando mal regulada, produz o efeito oposto: indecisão, ansiedade, sensação constante de erro potencial, revisão infinita do passado e do futuro. Um sistema que nunca converge.
E aqui volta o ponto evolutivo. Se existem padrões culturais que desincentivam movimento corporal mesmo sendo prejudiciais, também existem padrões internos que desincentivam o encerramento do pensamento. Mesmo quando continuar pensando já não traz vantagem.
Nem tudo que se replica é adaptativo no sentido clássico. Algumas coisas apenas persistem porque conseguem se sustentar dentro do sistema.
A diferença, no nível individual, é que — ao contrário do nível genético ou cultural — aqui existe a possibilidade de intervenção consciente.
Mas essa intervenção não vem de pensar mais. Vem da capacidade de selecionar pensamentos, e de decidir quando parar.
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